quinta-feira, 4 de junho de 2015
04 de junho de 2015. 17:21
CARTA QUE NUNCA ENVIAREI.
Boa tarde, P. Essa carta nunca vai ser enviada. Me aconselharam a controlar a minha intensidade. É difícil me controlar depois de 20 anos repetindo esse comportamento. Sim, eu sempre fui assim. Tenho mania de transformar tudo em poesia. Gosto de depositar sentimento em todas as coisas e dar a elas a veêmencia de uma canção. Pergunte a qualquer um que me conheça, a pouco tempo ou desde o meu nascimento, se já me viu chorar ou ser sentimentalista. Se este negar, é porque não me conhece de verdade. Ou conheceu a Dayane dos últimos anos, que absorveu a resposta do mundo à intensidade de forma negativa, e escondeu e sufocou cada vestígio de sentimento. Tenho feito isso, me agarrando e prendendo a teorias para sobreviver e viver antes e depois de relacionamentos, que na maioria das vezes nem começavam a acontecer, de forma a impedir que estes não me causasem nenhum tipo de dano. Hoje tenho plena certeza que estes danos evitados teriam sido ótimos pra mim, e que fugir disso me privou de momentos bons também. Enfim, a gente tá na vida pra aprender e nunca é tarde. 2015 chegou pra mim de modo emblemático e atípico. Desde o primeiro dia do ano me permiti a viver experiências nunca antes vividas, deixei correr o fluxo de mudanças que já vinham ocorrendo a alguns meses antes, tive bastante tempo e oportunidade para pensar e me descobrir. E assim o ano fluiu, seguindo uma jornada de autoconhecimento, sendo guiada por anjos que iluminam meus caminhos e pela fé, no Deus que habita em mim e em minhas convicções, na possibilidade de aprender mais e mais, e com a consciência da flexibidade que tais convicções devem ter, porque nada é estático e nunca será. A única certeza que me permeia é tudo o que vivi foi essencial para que eu chegasse até aqui, e vivo buscando o equilíbrio em todas as áreas da minha vida: Sentimental, espiritual, profissional e familiar. Como a parte sentimental é a que você consta, vou me focar nisso. Passei por algumas experiências. Algumas foram dolorosas, poucas foram agradáveis e a grande maioria foi irrelevante. Sei que assim foram as vezes por escolha minha, ou não. Mas o fato é que você apareceu. Você chegou em um momento que eu estava equilibrada dentro da minha zona de conforto, não esperando nada de ninguém e sendo supostamente feliz assim. Chegou bonito, impecavelmente vestido, educado, bem encaminhado, com mil e um artíficios agradavéis aos meus gostos e principalmente aos meus sentidos. Gostei da maneira que seus olhos amendoados se fecham quando você sorri. Gostei da sua voz e da forma hábil que você toca violão e dedilha tão bem todas a músicas que o vi tocar. Gostei do seu gosto musical, um pouco diferente do meu, mas de uma qualidade inquestionável. Gostei do seu beijo, que eu posso ter sentido ser tão gostoso porque parece se encaixar com o meu. Gostei do sexo. Ah, o sexo! Sexo, novo pra mim, o qual eu também venho descobrindo. Nunca me entreguei tão rápido a alguém, e com você descobri o prazer do corpo, o prazer de não me sentir desconfortável em momento algum, o prazer de dar e receber prazer. É um erro, dentro dos meus príncipios que carreguei a vida inteira, eu ter me entregado tão rápido assim. Mas o fiz porque eu quis e não me condeno. Me entreguei a todos os seus encantos. Não deixei a porta fechada. Não corri pra montanha mais alta e me escondi. Senti desde o princípio que você era uma avalanche. Aquela voz que mora dentro de mim, que uns chamam de intuição, outros chamam de Deus, me dizia: Fique. Viva. Se permita. E assim o fiz. Me abri. Abri, desajeitadamente, as portas da minha casa, do meu corpo e do meu coração. Você, com todos os seus agrados, era a pessoa que se encaixava em todas as qualidades e exigências que eu esperava em alguém. Um banquete pra um faminto. Até que, de uma forma confusa e conturbada, eu conheci o que está por dentro de você. Tão rápido e de uma forma tão estranha. O que você me confessou que te aflinge me aflingiu. Me relembrou uma situação que vivi, que eu não soube lidar e que me machucou muito. Eu poderia, facilmente, dar um basta e correr. Quase nada tinha se vivido até ali. Ninguém ia se ferir. Com uma simples palavra ou com a falta dela, o que mal tinha começado teria um fim. Mas aceitei a sinceridade que senti nas suas palavras, e deixei o fluxo natural das coisas correrem. Daí em diante você já sabe. Alguns bons encontros, algumas noites de um bom sexo. Alguns desencontros. E uma vontade ia crescendo dentro de mim de ter um pouco mais de ti. A Dayane de agora era diferente. Demonstrei, disse, fiz tudo o que quis fazer. Do meu jeito meio confuso, mas pela primeira vez eu fui simplesmente eu. Aprendi. A gostar de alguém e deixar alguém gostar de mim. Tbm a me libertar do egoísmo. Experimentei a vontade da sensação de posse, o ciúme, o querer e não poder. Tudo que vem junto no pacotinho colorido bordado com corações e estrelas cor de rosa do encantamento por alguém. Recebi o fardo da cobrança. Interna, das amigas e da família, dos conceitos e dos princípios, por uma definição. Mas calma, gente! Eu não vou cobrar nada. O amor é como um pássaro, que não deve ser engaiolado. Ele é livre e pousa no nosso ombro apenas se desejar. Mas no fundo, lá no fundinho, a gente cria expectativas. Do outro sentir as mesmas vontades, do outro querer o mesmo, do outro fazer o que a gente idealizou. O mal da humanidade é sempre esperar demasiadamente do outro e esquecer que o outro é um ser humano igual e diferente, com medos, vontades, gostos, quereres... O que você queria não correspondeu a minha maldita expectativa, que era e é totalmente de responsabilidade minha. Não a condeno e não faça isso também, meu bem, porque minha intenção sempre foi de ficar com você. Do jeito que fosse, sem me importar com rótulos ou afins. Eu só queria me deitar nua ao seu lado, daquele jeito tão delicioso que os nossos corpos se encaixam, receber seu carinho e te dar carinho também, olhar pra você e dizer qualquer bobagem só pra te fazer rir, e deixar as horas passarem, sem me importar com o mundo lá fora... Mas tudo está caminhando pra um percurso estranho e que eu nunca desejei. Estamos sucumbindo nos nossos receios. E isso me trás mais receios ainda. Já sai da minha zona de conforto. Me sinto como uma criança no primeiro dia de aula. Sem ninguém pra me proteger da dor que eu não quero que chegue. Eu sei que a dor é necessária, mas com você eu só quero sentir o Amor. É isso que eu busco e mereço. Você também. Estou decidida a não fugir, mesmo que a porta da saída de emergência esteja piscando e me convidando urgentemente ao conforto de não bater de frente com isso tudo que está acontecendo. A questão é que o que é confortável não é conivente ao que quero e sinto. Melhor do que sair bem das situações, é vive-las verdadeiramente. Não digo que temos a obrigatoriedade de darmos certo. Mas recebo você na minha vida didáticamente, como uma preparação para um relacionamento futuro, feliz, pleno e recheado de amor. Que pode ser com você, ou não. Quero ter a oportunidade de alguma forma ser algo bom pra você também. Vem comigo? Juro que vou encontrar uma forma suave e leve de te demonstrar e dizer tudo isso. Essa carta vai ser guardada, e lida por mim futuramente. Me vejo sorrindo, lendo, e sabendo que todo o sentimento e intensidade transbordada não foi em vão. No fim, tudo sempre dá certo.
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