sábado, 20 de junho de 2015

ONTEM

Ontem quando estava a caminho de te encontrar, sorri. Me vi com um sorriso bobo e um friozinho na barriga, que apaziguei imediatamente com a técnica que pretendia usar durante todo o momento que estivesse contigo: ser forte, indiferente, poderosa, avassaladora. Quando você ligou eu cometi o primeiro erro: esqueci todos os princípios da técnica. Fui doce, fui boba e disponível. Me corrigi e prometi que seguiria a cartilha perfeitamente. Nada ia dar errado, afinal, eu era uma nova mulher. Quando te vi me impressionei com o quanto você estava bonito. O mês que passamos distantes quase me fizeram esquecer da belezura dos seus olhinhos, pequenos e cor de mel. Não deixei o mel que você exala escorrer e me dominar. Mantive minha postura e lutei para permanecer nela... até a segunda caipirinha. Nesse momento já tinha dito tudo o que eu jurei que não ia dizer. Não consegui me manter totalmente indiferente como deveria, principalmente porque você parece ter um prazer hediondo em me provocar, e conseguiu. Quase cai na sua rede. Respirei, relembrei da cartilha em todos os momentos que observava cada detalhe do seu rosto. Sua blusa levemente pintada com alguns pingos de chuva. Suas mãos, sua boca, seu sorriso, sua risada. Em alguns muitos momentos quase deixei escapar pela boca minha vontade de que você estivesse mais perto. Mal conseguia acreditar que estávamos ali. Você e eu, tão perto e tão longe. Mas de alguma forma houve entendimento e esclarecimento. Naquele momento eu não queria ter dito adeus. Na pior das hipóteses eu queria que você dissesse: "Fica mais um pouco". Na melhor delas eu queria que você pegasse na minha mão e dissesse: "Eu vou contigo". Eu ia sorrir e ia te levar comigo. Ia te beijar e te acariciar por todo o longo caminho. Ia transpor pelo encontro dos nossos lábios e corpos toda a vontade súbita que eu senti de te agarrar por toda a noite. Ia me despir, me transbordar em você. Me entregar ao magnetismo do seu toque... Não aconteceu. Disse um tchau gaguejante, corri sem olhar pra trás, sentindo a frustração pesar em meus ombros. Entrei no ônibus errado, que corta a cidade e percorre um caminho mais longo que o habitual, mas não me importei. Mal percebi as ruas passarem. Só ouvia repetidamente o flashback de todas as palavras que dizemos. Pela janela eu só via você, nas esquinas, nas casas. Via o maldito livro que me convenceu a estar ali, e quase planejei picota-lo em mil pedaços. Desci antes da minha parada, por descuido. Andei. Andei rápido por uma rua vazia e deserta. Me vi nela, igualmente vazia e deserta, e pensei que poderiam emprestar meu nome à ela. Bom assim, na solidão daquele perigoso trajeto ninguém iria ver o letreiro da frustração piscando em minha testa. Andei, querendo que alguém aparecesse e levasse minha alma, minha vida e meu corpo, que eu gostaria de ter entregue a ti. O vento frio cortava meu rosto conforme meus passos se intensificavam, o medo que sentia da rua deserta não ultrapassava o sentimento de ter meu desejo interrompido. Mal percebi e já tinha chegado em casa. Tomei um banho. A água pesava uma tonelada. Me sequei e deitei, nua e desolada. Li sua mensagem tão carinhosa e preocupada, demonstrando que tinha gostado do encontro e também os eu desejo de que ficasse mais. Fui atacada com a raiva de você não ter pedido. Quis te xingar, te ofender, te insultar. Me contive. De qualquer forma eu teria dito não. Já estava prescrito como essa noite terminaria. Eu, sozinha, sem você. Você, sozinho, sem mim. Tive que renunciar a minha vontade de tu, pra te ter novamente depois. Te fazer pagar custou um preço alto pra mim, tal preço que estou pagando até agora. O telefone não tocou. Não chegou nenhuma mensagem sua. E também não ligarei, não te procurarei. Não posso, apesar de ter lhe cobiçado por todo o dia e por ter amaldiçoado todas essas regras tolas que estamos cercados, envoltos por tantos costumes vis à minha essência. Eu te quero. Posso negar para todos a minha volta, mas é impossível me ludibriar. Te quero com os seus defeitos, com a sua auto afirmação, com o seu medo, com o seu ódio, com tudo de desprezível que tem em você. Quero possuir o teu bem e o teu mal. Quero sua memória e o seu sentimento. Quero que você faça parte de mim como a minha pele pertence ao meu corpo. Quero aceitar o apego, a paixão, a ilusão, a carência e a loucura como aceito a minha necessidade de respirar. Só o que não quero é ter jeito e cura. Só o que não quero é ficar sem você.

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