sábado, 27 de junho de 2015

Hoje quando acordei, em uma bela manhã ensolarada de inverno, amaldiçoei tamanha luz. A claridade me incomodou e todas as cores não fizeram nenhum sentido. Me vesti toda de preto. Logo eu, que amo as cores, as flores. Me vesti transparecendo o que estava sentindo por dentro. Me vesti pro seu enterro. Pra exumação do seu corpo e pra extinção da sua vida em mim. Seu corpo, sua vida. Ambos tão nítidos e vigorosos em minhas lembranças, e de repente, enfim, tiveram uma morte súbita. Morreram. Me vesti toda de preto, pra afastar teu fantasma e celebrar teu luto. A partir de então, está consumado, tudo o que deveras sentia está devidamente enterrado. Amanhã, quando um novo dia nascer, eu me vestirei de flores. O sol vai brilhar, amarei a luz. Você não passará de uma doce lápide q quem prestei um curto momento de luto. E estará para sempre enterrado no cemitério dos amores mal vividos.
A lua brilha. Linda e impávida, trazendo luz à escuridão da vida. Ela vem para abrilhantar a noite dos apaixonados, que farão amor cobertos pelo fino véu da sua resplandescente luz. Ela vem também, para lembrar que a esperança é como sua luz e ela não há de se apagar, mesmo nos caminhos mais escuros e sombrios. Ela vem, sorrindo, descarando seus brancos dentes em um encantador sorriso, pra quem olhar e compreender e retribuir, sorrir, se alumiar e não esquecer que a luz vem do interior e a grandeza particular que vem de dentro nunca pode se perder.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Não é justo. Olho ao meu redor. A sala vazia. Frio. Meu corpo frio e desagalhado. Uma sensação estranha e indefinível. Sensação de vazio. Me sinto mais vazia que esta sala, um cômodo, inanimado. Eu, mais inanimada ainda. Não é justo. Nenhuma mensagem sua. Nenhuma ligação. Aquela doce mensagem de "boa noite", não chegou. Ao amanhecer, a rotineira mensagem de "bom dia" não chegará. Mesmo assim, olho para o celular, na esperança de um mínimo contato teu. Mas permaneço aqui, na crescente dor que me trás a dúvida se estás a pensar em mim, a dúvida que me atordoa por não saber se você ainda pensa em mim durante o seu dia, como você revelava pensar. Aposto que não. Minha aposta é mais certeira que a morte. Você me procuraria e falaria se desejasse. Você não é um homem que contem seus desejos. Através do seu silêncio vejo que, ao contrário do que está havendo em mim, nada lhe incomoda. Que bom, saber que você está em paz. Mas minha bondade não me ajuda a deixar de questionar a sua falta de incômodo. Você está feliz, sim, nítidamente feliz. Sem mim! Com outra? Sem ninguém? É impossível saber e na prática estou vendo o quanto é possível doer. Só de imaginar que podes estar direcionando tua atenção e ternura que antes era dirigida a mim para outra, dói. Dói muito. Não é justo. Nada é justo. A justiça não é justa. Ela só se justifica quando se existem leis, regras ou promessas. Você nunca me prometeu nada. Nunca te prometi nada. Nunca nos prometemos nada. Por que? Por que não posso te prometer o que quiser, por que não posso dizer o quanto essa vontade de você tá me corroendo, por que não posso falar, gritar sobre essa saudade que estou sentindo, por que não posso ser eu, somente eu, sem máscaras, sem jogos, sem nada? NUA, transparente. Isso de ser poderosa e superior é uma merda. Eu sou carente sim. Não sou carente de carinho, de homem, de atenção. Sou carente de você. Da sua atenção, do seu carinho. Não é justo. Não é justo eu não poder me doar. Não é justo a visão que tu tens perante a minha doação. Não te condeno. Só lhe condeno por você vir e partir. Simplesmente partir... e me deixar aqui com tudo isso que não é nada simples... Eu vou me agasalhar. Os ventos frios da madrugada nos trazem essas coisas, nos deixam frios por fora e quente por dentro. Vou dormir, descansar e torcer pra você não me visitar em um sonho. Torcer pra que na hora em que eu acorde você tenha devolvido o meu coração. Porque isso não é justo.

sábado, 20 de junho de 2015

ONTEM

Ontem quando estava a caminho de te encontrar, sorri. Me vi com um sorriso bobo e um friozinho na barriga, que apaziguei imediatamente com a técnica que pretendia usar durante todo o momento que estivesse contigo: ser forte, indiferente, poderosa, avassaladora. Quando você ligou eu cometi o primeiro erro: esqueci todos os princípios da técnica. Fui doce, fui boba e disponível. Me corrigi e prometi que seguiria a cartilha perfeitamente. Nada ia dar errado, afinal, eu era uma nova mulher. Quando te vi me impressionei com o quanto você estava bonito. O mês que passamos distantes quase me fizeram esquecer da belezura dos seus olhinhos, pequenos e cor de mel. Não deixei o mel que você exala escorrer e me dominar. Mantive minha postura e lutei para permanecer nela... até a segunda caipirinha. Nesse momento já tinha dito tudo o que eu jurei que não ia dizer. Não consegui me manter totalmente indiferente como deveria, principalmente porque você parece ter um prazer hediondo em me provocar, e conseguiu. Quase cai na sua rede. Respirei, relembrei da cartilha em todos os momentos que observava cada detalhe do seu rosto. Sua blusa levemente pintada com alguns pingos de chuva. Suas mãos, sua boca, seu sorriso, sua risada. Em alguns muitos momentos quase deixei escapar pela boca minha vontade de que você estivesse mais perto. Mal conseguia acreditar que estávamos ali. Você e eu, tão perto e tão longe. Mas de alguma forma houve entendimento e esclarecimento. Naquele momento eu não queria ter dito adeus. Na pior das hipóteses eu queria que você dissesse: "Fica mais um pouco". Na melhor delas eu queria que você pegasse na minha mão e dissesse: "Eu vou contigo". Eu ia sorrir e ia te levar comigo. Ia te beijar e te acariciar por todo o longo caminho. Ia transpor pelo encontro dos nossos lábios e corpos toda a vontade súbita que eu senti de te agarrar por toda a noite. Ia me despir, me transbordar em você. Me entregar ao magnetismo do seu toque... Não aconteceu. Disse um tchau gaguejante, corri sem olhar pra trás, sentindo a frustração pesar em meus ombros. Entrei no ônibus errado, que corta a cidade e percorre um caminho mais longo que o habitual, mas não me importei. Mal percebi as ruas passarem. Só ouvia repetidamente o flashback de todas as palavras que dizemos. Pela janela eu só via você, nas esquinas, nas casas. Via o maldito livro que me convenceu a estar ali, e quase planejei picota-lo em mil pedaços. Desci antes da minha parada, por descuido. Andei. Andei rápido por uma rua vazia e deserta. Me vi nela, igualmente vazia e deserta, e pensei que poderiam emprestar meu nome à ela. Bom assim, na solidão daquele perigoso trajeto ninguém iria ver o letreiro da frustração piscando em minha testa. Andei, querendo que alguém aparecesse e levasse minha alma, minha vida e meu corpo, que eu gostaria de ter entregue a ti. O vento frio cortava meu rosto conforme meus passos se intensificavam, o medo que sentia da rua deserta não ultrapassava o sentimento de ter meu desejo interrompido. Mal percebi e já tinha chegado em casa. Tomei um banho. A água pesava uma tonelada. Me sequei e deitei, nua e desolada. Li sua mensagem tão carinhosa e preocupada, demonstrando que tinha gostado do encontro e também os eu desejo de que ficasse mais. Fui atacada com a raiva de você não ter pedido. Quis te xingar, te ofender, te insultar. Me contive. De qualquer forma eu teria dito não. Já estava prescrito como essa noite terminaria. Eu, sozinha, sem você. Você, sozinho, sem mim. Tive que renunciar a minha vontade de tu, pra te ter novamente depois. Te fazer pagar custou um preço alto pra mim, tal preço que estou pagando até agora. O telefone não tocou. Não chegou nenhuma mensagem sua. E também não ligarei, não te procurarei. Não posso, apesar de ter lhe cobiçado por todo o dia e por ter amaldiçoado todas essas regras tolas que estamos cercados, envoltos por tantos costumes vis à minha essência. Eu te quero. Posso negar para todos a minha volta, mas é impossível me ludibriar. Te quero com os seus defeitos, com a sua auto afirmação, com o seu medo, com o seu ódio, com tudo de desprezível que tem em você. Quero possuir o teu bem e o teu mal. Quero sua memória e o seu sentimento. Quero que você faça parte de mim como a minha pele pertence ao meu corpo. Quero aceitar o apego, a paixão, a ilusão, a carência e a loucura como aceito a minha necessidade de respirar. Só o que não quero é ter jeito e cura. Só o que não quero é ficar sem você.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

04 de junho de 2015. 17:21 CARTA QUE NUNCA ENVIAREI. Boa tarde, P. Essa carta nunca vai ser enviada. Me aconselharam a controlar a minha intensidade. É difícil me controlar depois de 20 anos repetindo esse comportamento. Sim, eu sempre fui assim. Tenho mania de transformar tudo em poesia. Gosto de depositar sentimento em todas as coisas e dar a elas a veêmencia de uma canção. Pergunte a qualquer um que me conheça, a pouco tempo ou desde o meu nascimento, se já me viu chorar ou ser sentimentalista. Se este negar, é porque não me conhece de verdade. Ou conheceu a Dayane dos últimos anos, que absorveu a resposta do mundo à intensidade de forma negativa, e escondeu e sufocou cada vestígio de sentimento. Tenho feito isso, me agarrando e prendendo a teorias para sobreviver e viver antes e depois de relacionamentos, que na maioria das vezes nem começavam a acontecer, de forma a impedir que estes não me causasem nenhum tipo de dano. Hoje tenho plena certeza que estes danos evitados teriam sido ótimos pra mim, e que fugir disso me privou de momentos bons também. Enfim, a gente tá na vida pra aprender e nunca é tarde. 2015 chegou pra mim de modo emblemático e atípico. Desde o primeiro dia do ano me permiti a viver experiências nunca antes vividas, deixei correr o fluxo de mudanças que já vinham ocorrendo a alguns meses antes, tive bastante tempo e oportunidade para pensar e me descobrir. E assim o ano fluiu, seguindo uma jornada de autoconhecimento, sendo guiada por anjos que iluminam meus caminhos e pela fé, no Deus que habita em mim e em minhas convicções, na possibilidade de aprender mais e mais, e com a consciência da flexibidade que tais convicções devem ter, porque nada é estático e nunca será. A única certeza que me permeia é tudo o que vivi foi essencial para que eu chegasse até aqui, e vivo buscando o equilíbrio em todas as áreas da minha vida: Sentimental, espiritual, profissional e familiar. Como a parte sentimental é a que você consta, vou me focar nisso. Passei por algumas experiências. Algumas foram dolorosas, poucas foram agradáveis e a grande maioria foi irrelevante. Sei que assim foram as vezes por escolha minha, ou não. Mas o fato é que você apareceu. Você chegou em um momento que eu estava equilibrada dentro da minha zona de conforto, não esperando nada de ninguém e sendo supostamente feliz assim. Chegou bonito, impecavelmente vestido, educado, bem encaminhado, com mil e um artíficios agradavéis aos meus gostos e principalmente aos meus sentidos. Gostei da maneira que seus olhos amendoados se fecham quando você sorri. Gostei da sua voz e da forma hábil que você toca violão e dedilha tão bem todas a músicas que o vi tocar. Gostei do seu gosto musical, um pouco diferente do meu, mas de uma qualidade inquestionável. Gostei do seu beijo, que eu posso ter sentido ser tão gostoso porque parece se encaixar com o meu. Gostei do sexo. Ah, o sexo! Sexo, novo pra mim, o qual eu também venho descobrindo. Nunca me entreguei tão rápido a alguém, e com você descobri o prazer do corpo, o prazer de não me sentir desconfortável em momento algum, o prazer de dar e receber prazer. É um erro, dentro dos meus príncipios que carreguei a vida inteira, eu ter me entregado tão rápido assim. Mas o fiz porque eu quis e não me condeno. Me entreguei a todos os seus encantos. Não deixei a porta fechada. Não corri pra montanha mais alta e me escondi. Senti desde o princípio que você era uma avalanche. Aquela voz que mora dentro de mim, que uns chamam de intuição, outros chamam de Deus, me dizia: Fique. Viva. Se permita. E assim o fiz. Me abri. Abri, desajeitadamente, as portas da minha casa, do meu corpo e do meu coração. Você, com todos os seus agrados, era a pessoa que se encaixava em todas as qualidades e exigências que eu esperava em alguém. Um banquete pra um faminto. Até que, de uma forma confusa e conturbada, eu conheci o que está por dentro de você. Tão rápido e de uma forma tão estranha. O que você me confessou que te aflinge me aflingiu. Me relembrou uma situação que vivi, que eu não soube lidar e que me machucou muito. Eu poderia, facilmente, dar um basta e correr. Quase nada tinha se vivido até ali. Ninguém ia se ferir. Com uma simples palavra ou com a falta dela, o que mal tinha começado teria um fim. Mas aceitei a sinceridade que senti nas suas palavras, e deixei o fluxo natural das coisas correrem. Daí em diante você já sabe. Alguns bons encontros, algumas noites de um bom sexo. Alguns desencontros. E uma vontade ia crescendo dentro de mim de ter um pouco mais de ti. A Dayane de agora era diferente. Demonstrei, disse, fiz tudo o que quis fazer. Do meu jeito meio confuso, mas pela primeira vez eu fui simplesmente eu. Aprendi. A gostar de alguém e deixar alguém gostar de mim. Tbm a me libertar do egoísmo. Experimentei a vontade da sensação de posse, o ciúme, o querer e não poder. Tudo que vem junto no pacotinho colorido bordado com corações e estrelas cor de rosa do encantamento por alguém. Recebi o fardo da cobrança. Interna, das amigas e da família, dos conceitos e dos princípios, por uma definição. Mas calma, gente! Eu não vou cobrar nada. O amor é como um pássaro, que não deve ser engaiolado. Ele é livre e pousa no nosso ombro apenas se desejar. Mas no fundo, lá no fundinho, a gente cria expectativas. Do outro sentir as mesmas vontades, do outro querer o mesmo, do outro fazer o que a gente idealizou. O mal da humanidade é sempre esperar demasiadamente do outro e esquecer que o outro é um ser humano igual e diferente, com medos, vontades, gostos, quereres... O que você queria não correspondeu a minha maldita expectativa, que era e é totalmente de responsabilidade minha. Não a condeno e não faça isso também, meu bem, porque minha intenção sempre foi de ficar com você. Do jeito que fosse, sem me importar com rótulos ou afins. Eu só queria me deitar nua ao seu lado, daquele jeito tão delicioso que os nossos corpos se encaixam, receber seu carinho e te dar carinho também, olhar pra você e dizer qualquer bobagem só pra te fazer rir, e deixar as horas passarem, sem me importar com o mundo lá fora... Mas tudo está caminhando pra um percurso estranho e que eu nunca desejei. Estamos sucumbindo nos nossos receios. E isso me trás mais receios ainda. Já sai da minha zona de conforto. Me sinto como uma criança no primeiro dia de aula. Sem ninguém pra me proteger da dor que eu não quero que chegue. Eu sei que a dor é necessária, mas com você eu só quero sentir o Amor. É isso que eu busco e mereço. Você também. Estou decidida a não fugir, mesmo que a porta da saída de emergência esteja piscando e me convidando urgentemente ao conforto de não bater de frente com isso tudo que está acontecendo. A questão é que o que é confortável não é conivente ao que quero e sinto. Melhor do que sair bem das situações, é vive-las verdadeiramente. Não digo que temos a obrigatoriedade de darmos certo. Mas recebo você na minha vida didáticamente, como uma preparação para um relacionamento futuro, feliz, pleno e recheado de amor. Que pode ser com você, ou não. Quero ter a oportunidade de alguma forma ser algo bom pra você também. Vem comigo? Juro que vou encontrar uma forma suave e leve de te demonstrar e dizer tudo isso. Essa carta vai ser guardada, e lida por mim futuramente. Me vejo sorrindo, lendo, e sabendo que todo o sentimento e intensidade transbordada não foi em vão. No fim, tudo sempre dá certo.